domingo, abril 14, 2024

Tendência leva molhos, geleias e temperos para dentro do copo

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Depois da clara de ovo e das azeitonas, outros ingredientes agora “pulam” dos pratos para as coqueteleiras, e a opinião de chefs e bartenders sobre os ganhos com a experiência é unânime: personalidade, conhecimento e sustentabilidade.

“A identidade se fortalece e a mensagem dos valores é passada naturalmente”, entende a chef Bel Coelho, do Cuia Café. “Valorizamos os biomas e a cultura alimentar brasileira.”

No balcão do Cuia, a chefe de bar Larissa Fernandes prepara drinques como o Fitzgerald de Jambu (R$ 36) e o Sucupira (R$ 36), que leva louro. “Também usamos pimenta de cheiro, puxuri, buriti, noz moscada, cúrcuma, coentro, semente de cacau”, lista.

Segundo Larissa explica, a troca vai além dos insumos, passando por técnicas como o ponto perfeito da geleia, e a lida com equipamentos, como as formas de usar o forno.

No Jiquitaia, a dica é harmonizar doce com licor correspondente. Nos sabores de abacaxi tostado, cupuaçu e café (R$ 25), os digestivos criados pela sócia Nina Bastos são feitos com as caldas das sobremesas.

“Essa sinergia é essencial para o restaurante”, comenta. Tanto que, para criar o Caju Amigo, Nina recorreu ao irmão, o chef Marcelo Corrêa Bastos.

“Ele fez junto comigo a compota de caju, é um coquetel a quatro mãos”. É dele, ainda, o mix de temperos do drinque Jiquitaia’s Blood (R$ 32), com suco de tomate, gin e mix de temperos do chef.

As bebidas da casa seguem o fluxo. A mesma calda de abacaxi adoça o novo Antiquado (R$ 32), o Maracatu (R$ 34) leva beterraba, e o Si Hay Coentro, Soy Contra! (R$ 36) —criado pelo consultor de bares Danilo Nakamura— soma xarope, além de folhas maceradas e inteiras da erva.

“É um dos drinques que mais harmonizam com os pratos, porque é uma cozinha que usa muito o coentro”, diz o chefe de bar David Moraes, autor do Antiquado e do Maracatu.

No bar do Komah, por sua vez, o kimchi (conserva coreana feita à base de hortaliças) e o khaenipp (folha de gergelim) protagonizam o Kimchi Mary (R$ 31) e o Khaenipp Sour (R$ 32), respectivamente.

“O khaenipp é uma folha refrescante servida com a pancetta, e o kimchi veio da ideia do fermentado, do picante que o coreano gosta”, explica Marcos Vinicius Apolinário, idealizador da primeira carta autoral do restaurante.

O atual chefe de bar, André Seiti, mantém a lógica e acaba de criar o Oh My Ghost (R$ 35), que leva vodka fat washing de óleo de gergelim.

“Guarneço com cebolinha e grãos de gergelim torrado, remetendo à culinária típica”, detalha.

O chef Paulo Shin dá carta branca e vê receptividade no cliente. “Uma vez que o garçom oferece um drink que é diferente de tudo que ele poderia ter tomado, a resposta que ele tem é ‘sim’!”, relata.

A conexão bar-cozinha é mais profunda do que parece. “A maioria não sabe, mas está comendo caju fresco e desidratado, da infusão com gin”, conta o chefe de bar do Balaio IMS, Rafael Welbert.

“Você consegue ser sustentável e ter essa troca de experiência”, diz.

Enquanto o caju infusionado para o Gin Tônica do Sertão (R$ 32) e o Robert Cocktail (R$ 32) entra na moqueca vegana do chef Rodrigo Oliveira, os nibs de cacau do xarope viram acompanhamento do café pela chef confeiteira Patrícia Moryta —dela, vem o creme do fruto do Cerrado para o Pequiii (R$ 32).

No Tujuína, do chef Ivan Ralston, a acidez do vinagre de maracujá dá o tom do Ginbugueiro (R$ 48), enquanto a untuosidade vem do óleo de avelã no Golden Hazelnut (R$ 32), e da manteiga no Noisette (R$ 42).

“Foi com o Ivan que comecei a criar drinks que tivessem base na gastronomia”, lembra o bartender Maurício Barbosa, que já trabalhou com conservação em cera de abelha e sorvete em preparações.

Ralston dá autonomia. “A gente tem equipamentos que um bar talvez não tenha, então é possível incorporar técnicas”, complementa.

“A primeira pergunta que eu faço é: por que não?”, provoca a mixologista e pesquisadora Néli Pereira. Ela é incisiva sobre a ligação entre bar e cozinha: “É a sustentabilidade do planeta, do negócio e dos funcionários.”

Néli relembra as experiências no Espaço Zebra —temporariamente fechado por conta da pandemia, mas com planos de reabrir já no próximo semestre—, onde conservas, picles, geleias e compotas viravam insumo para coquetéis e vice-versa.

“A catuaba que sobrava da infusão ia pra cozinha e virava um chutney para a tábua de queijos”, conta.

Quanto mais mergulha nesse universo, mais o carrinho de bar da Néli cresce, provando que é preciso “botar pra jogo” boas combinações ao abusar dos temperos, doces e molhos. “Quando estamos fazendo tucupi, um shot com cachaça sempre rola aqui em casa”, revela.

Há muitos mixologistas dispostos a colocar esse conceito em prática, acredita Néli, e cabe aos chefs se abrir para a troca. “Eles têm muito a nos ensinar. O que não pode é transformar o bartender num replicador”, alerta.

“É incorporar a coquetelaria como uma experiência de gastronomia. É o que as pessoas vão querer provar no pós-pandemia.”

Fonte feed: Via Feed Folha de S.Paulo