23 maio2022

    À frente de alambiques e bares, ‘cachaceiras’ lutam pelo fim do preconceito

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    Cris Amin, 52, produtora cultural. Celia Ferreira, 55, matemática. Livia Souto, 57, arquiteta. Aline Souza, 33, advogada. Rosana Romano, 71, bailarina. Em comum, essas mulheres de formações e idades tão diversas têm uma paixão: a cachaça.

    O universo da bebida, considerada o primeiro destilado das Américas, nunca foi tão feminino. Elas ocuparam seus lugares na marra, com disposição para enfrentar séculos de preconceitos arraigados, e trabalham unidas para mudar a imagem da cachaça e das cachaceiras.

    “Sempre que me perguntam o que eu faço, respondo que sou cachaceira. As pessoas ainda estranham, riem, o que a gente não vê quando alguém diz que é cervejeira”, compara Amin, produtora da Tiê, eleita a melhor cachaça branca do Brasil, em 2020, pelo 4º Ranking da Cúpula da Cachaça.

    Amin faz questão de circular com o broche “Cachaceira” no peito, disposta mesmo a provocar. Nas fotos que divulga nas redes sociais, capricha na produção e na maquiagem. “Quero mostrar que meu produto é nobre, que sou cachaceira, linda e chique.”

    Mineira da Zona da Mata, Livia Souto conta que vem de uma família de cachaceiros e que a branquinha produzida pelo avô, que nem rótulo tinha, sempre estava presente à mesa.

    Com o passar dos anos, a produção caseira foi se aprimorando e, nas mãos do pai dela, ganhou o rótulo Colombina. Mas só bem mais tarde, quando assumiu o alambique, em 2016, Souto sentiu, pela primeira vez, que pisava em terreno dominado pelos homens. “Para nós, lá em casa, nunca teve essa história. Minha mãe era mestre-alambiqueira”, recorda.

    Celia Ferreira, ao contrário, demorou a ter contato com boas cachaças artesanais. Incentivada pelo marido, tomou os primeiros goles, experimentou drinques e acabou se apaixonando. Hoje, o casal produz a cachaça Wiba! e, com base na própria vivência, Ferreira se dedica a dobrar a resistência de quem ainda torce o nariz para a bebida.

    O processo criado pela Wiba! foi batizado de Caipirinha na Boca –as pessoas são convidadas a morder frutas in natura, com açúcar, mastigar um pouquinho e completar com um gole de cachaça.

    “Nas degustações, vemos que as mulheres são as mais interessadas em aprender. Elas chegam achando que caipirinha de vodca é melhor, mas mudam de opinião depois de provar uma boa cachaça”, diz a produtora, que pessoalmente prefere uma boa purinha envelhecida em carvalho.

    São tantas as cachaceiras assumidas que a ConVida – Confraria Mulheres da Cachaça já soma 504 membros e tem fila de espera para novas associadas. O grupo, fundado pela bailarina mineira Rosana Romano em 2017, começou com apenas oito mulheres.

    Nos encontros, que não têm periodicidade fixa e também acontecem no formato virtual, as confreiras fazem degustações harmonizadas e se divertem com os olhares curiosos.

    “Há 40 anos, eu ia aos restaurantes com meu marido e pedíamos uma cachaça e uma cerveja. O garçom sempre entregava a cerveja para mim e ficava surpreso ao ver que eu havia pedido justamente a cachaça. Até hoje, por incrível que pareça, as pessoas ainda estranham um grupo de mulheres reunidas bebendo cachaça”, conta Romano, produtora da cachaça Bem me Quer.

    Se depender da advogada Aline Souza, o território feminino nesse universo ainda tem muito a crescer. Casada com o sommelier Bruno Videira, fundador do movimento Viva Cachaça, ela vem liderando campanhas para mostrar que as cachaceiras não estão para brincadeira.

    A mais recente, postada no Instagram do movimento na forma de vídeos testemunhais, recebeu o título de “Série #MãeCachaceira”.

    “O primeiro vídeo que postei, no Dia da Mulher, foi uma virada de chave para mim. Eu, que sempre me via como coadjuvante do Bruno, apareci toda vestida de advogada, assumindo que sou cachaceira, e a mensagem bombou. A gente precisa assumir o protagonismo”, diz Souza.

    As mulheres também já ocuparam terreno na outra ponta da cadeia —o bar. No Espaço Zebra, a mixologista Néli Pereira, 42, tenta conquistar o paladar da clientela para a cachaça a partir dos drinques.

    “As pessoas têm um baita preconceito, pagam caro por qualquer destilado e não querem pagar por uma boa cachaça. No balcão, gosto de oferecer experiências, é uma viagem sem volta.”

    Sócia do restaurante e bar Jiquitaia, Nina Bastos, 38, bate na mesma tecla desde a inauguração da casa, em 2012. Ela sugere cachaça não só para as caipirinhas –a bebida também entra em coquetéis clássicos revisitados. De tanta insistência, diz, o cenário já mudou.

    “No começo, eu vendia 90% de caipiroscas. Com esse trabalho de formiguinha, 95% dos pedidos já são caipirinhas, que faço com uma cachaça branca desenvolvida para nós. Tem teor alcoólico alto, 47%, para aguentar a diluição.”

    Consultora de bebidas brasileiras, Isadora Fornari, 35, treina equipes de bares para que aprendam a reconhecer e valorizar boas cachaças. E não se surpreende ao constatar que o crescimento do público feminino, nos cursos, chegou a 60% em cinco anos.

    “A mulher sempre foi protagonista. A cachaça do João era feita pela Maria, porque ele cuidava da roça enquanto ela ficava no alambique. As mulheres também gostavam de beber, só não podiam demonstrar”, afirma.

    Hoje, não só podem como fazem questão de se exibir. Que o diga Luisa Saliba, 65, proprietária do restaurante e bar Rota do Acarajé, cuja carta de cachaças lista 1.119 rótulos.

    Duas vezes por semana, às quartas e sextas, ela e a jornalista Denise Marcolino recebem grupos de até oito pessoas para a experiência Rota da Cachaça, comercializada pelo Airbnb.

    Clientes do Brasil e do exterior pagam R$ 72 por pessoa para assistir à aula trilíngue português/inglês/espanhol, com direito a degustação de cinco rótulos. Em geral, a plateia é 50% feminina.

    “Desde que começamos a trabalhar a ideia de que as mulheres podem entender de cachaça e apreciar a bebida, elas estão bebendo mais. Tanto que, de uns anos para cá, passaram a pedir cachaça pura, em doses”, brinda Saliba.

    As cachaceiras também estão unidas em torno de uma questão etimológica. Aline Souza, do Viva Cachaça, lidera um movimento para exigir que os dicionários brasileiros mudem a definição da palavra cachaceiro.

    “Nos principais dicionários, cervejeiro é o produtor ou apreciador de cerveja, enquanto cachaceiro é quem bebe de forma exagerada. O mesmo acontece na pesquisa de imagens do Google, só aparecem fotos de bêbados caídos”, chia a advogada.

    Com ajuda de linguistas e historiadores, Souza está elaborando um dossiê, que pretende encaminhar às equipes gestoras dos dicionários e ao site de buscas.

    “Esse lado pejorativo tem razões históricas, mas está na hora de ressaltar que a cachaça tem muitos valores positivos.”


    Primeiros goles

    Aprenda a preparar dois drinques do bar do Jiquitaia —na opinião da sócia e especialista em bebidas Nina Bastos, eles são uma ótima porta de entrada para o mundo da cachaça.

    Flor da Paraíba

    Na releitura do Sherry Martini vão 20 ml de cachaça paraibana Serra Limpa armazenada em freijó, 50 ml de vinho fortificado Manzanilla La Guita, 10 ml de vermute seco e 10 ml de água de azeitona. Misture os ingredientes com bastante gelo e sirva em taça de dry martini, com uma azeitona.

    Caju Amigo

    Aqui não entra vodca. Só 60 ml de cachaça Princesa Isabel Aquarela, 50 ml de suco natural de caju, 20 ml de suco de limão e 20 ml de calda de compota de caju – coloque as frutas da compota no fundo do copo e complete com os outros ingredientes, batidos na coqueteleira.

    Fonte feed: Via Feed Folha de S.Paulo