23 maio2022

    A maionese desandou, por Cozinha Bruta

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    “Licorice Pizza”, de Paul Thomas Anderson, é uma delícia. Podem ficar tranquilos, eu não vou escrever a décima-sétima resenha do filme para este jornal. Quero apenas falar do lugar mental para onde ele me transportou: o mundo em que eu cresci, nos anos 1970 e 80, bem longe da Califórnia.

    Eram tempos de ótima música, fliperama e o medo permanente de que tudo fosse pro beleléu numa Terceira Guerra Mundial com armas nucleares.

    No filme, a realidade brutal daqueles anos às vezes se intromete nos desencontros do casal protagonista –um menino de 15 anos todo cheio de si e uma jovem de 25 anos terrivelmente insegura.

    Um dos panos de fundo do enredo é a crise do petróleo de 1973. Com a gasolina em falta, Los Angeles virou uma enorme fila de carros parados nos postos de combustível.

    Com quase 50 anos de distância, parece uma cena radical de caos. Mas foi algo que se repetiu algumas vezes, era quase corriqueiro.

    Eu sei o que é ficar três horas no banco traseiro do Opala branco do meu pai, à espera de uma quantidade racionada de gasolina. E o petróleo não era a única coisa em escassez.

    Pelos mais variados motivos –quebra de safra, pressão dos produtores, demanda anormal– sempre tinha alguma coisa em falta. Faltava carne, faltava cerveja, se perigasse faltava até palito de fósforo para acender a churrasqueira.

    Com a inflação maluca, as pessoas compravam comida para todo o mês assim que recebiam o salário. Enganchavam dois ou três carrinhos no supermercado. Lembro que minha mãe pegava uma peça inteira de contrafilé e passava a tarde de sábado fatiando bifes para congelar.

    Éramos acostumados a termos como “guerra fria” e “cortina de ferro”, tínhamos pesadelos com o embate final entre os Estados Unidos e a União Soviética, a ameaça nuclear pairava feito assombração sobre nós.

    O medo da catástrofe atômica se tornou pânico em 1986, com o acidente da usina de Tchernóbil, na Ucrânia soviética. O vazamento de material nuclear matou 31 pessoas e empesteou a comida num raio de muitas centenas de quilômetros.

    Um tempo depois, curiosamente, começou a aparecer nos supermercados daqui um leite em pó diferente, vindo da Holanda ou da Irlanda. Era produto rejeitado pelos países europeus porque tinha níveis de radiação muito acima dos aceitáveis. Milk-shake atômico desovado nos trópicos.

    Na virada do milênio, parecíamos ter superado a história suja que nos levara até ali. Acabou guerra fria, a internet operando milagres, até a economia do Brasil entrou nos eixos.

    Então a nau emborcou lindamente outra vez. A maionese desandou. Fome, inflação, fascismo e peste já se instalaram no sofá. Agora é o fantasma da guerra total que toca a campainha.

    Sugiro que, além de “Licorice Pizza”, você veja “O Dia Seguinte” –filme de 1983 que simulava os efeitos de um ataque nuclear no interior dos EUA. Só não se esqueça de rebobinar o VHS antes de devolver na videolocadora.

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    Fonte feed: Via Feed Folha de S.Paulo