25 maio2022

    Ativistas da alimentação encontram-se com Guilherme Boulos para expor projetos e desafios para a soberania alimentar

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    Ativistas da alimentação encontram-se com Guilherme Boulos para expor projetos e desafios para a soberania alimentar

    Aconteceu na última segunda-feira (28) um encontro entre Guilherme Boulos, pré-candidato a deputado federal pelo Psol, e entidades e entidades e ativistas alimentares. No topo da pauta: Soberania e Segurança alimentar e Nutricional. O Levante Slow Food Brasil esteve lá.

    por Maria Capai

    A pesquisadora Adriana Salay, que estuda temas ligados à fome e hábitos alimentares, e a chef de cozinha Bel Coelho organizaram um encontro entre Guilherme Boulos e entidades e ativistas alimentares. Na última segunda-feira (28), o pré-candidato à deputado federal pelo Psol e cerca de 40 ativistas foram recebidos pelo chef Rodrigo Oliveira no seu restaurante Mocotó. Bem-humorado, Rodrigo deu as boas-vindas a todos e logo passou a palavra, dizendo que estaria ao lado cuidando da reposição do café. A descontração inicial precedia um assunto denso: Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

    A roda foi aberta e os participantes contaram um pouco sobre a realidade em seu território de atuação, os desafios e as demandas ligadas à alimentação. 

    Um dos primeiros a falar, José Raimundo Sousa Ribeiro Junior chamou a atenção para a importância de substituirmos o termo Segurança Alimentar – capturado por grandes empresas como Monsanto e Banco Mundial – por Soberania Alimentar. E frisou: “Temos que falar sobre a fome”. E foram questões ligadas a ela que estiveram no centro da pauta. 

    Neide Rigo, nutricionista, blogueira do Come-se, lembrou que apesar de todos os problemas em sua vivência de migrante periférica na infância, sua família contava com um quintal no qual podia plantar seu alimento. Incentivadora das hortas comunitárias – que para além de produzir alimentos em centros urbanos, servem de local para reconhecimento e resgate de espécies alimentícias negligenciadas, espaço para educação alimentar e ambiental, e para encontro para pessoas interessadas nesses temas -, Neide provoca: não basta falarmos que a periferia tem que plantar, há que se disponibilizar terra para plantio nessas áreas, além de levar hortas para as escolas e construí-las com plantas mais resilientes, que se satisfaçam basicamente com água da chuva.

    Fabio Paes, através de sua experiência propôs a reflexão de como podemos responder com políticas públicas à demanda urgente dos moradores de rua. Essa população, composta por muitos trabalhadores que não tem acesso à moradia, não tem tempo de esperar a planta crescer e tem vivido da doação de marmitas. O Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade) distribui cerca de cinco mil marmitas por dia. Um representante do MTST trouxe um panorama semelhante ao falar das doações de alimentos durante a pandemia. O Movimento percebeu que muitas pessoas que buscavam doações não tinham dinheiro para comprar botijão de gás. A partir dessa percepção o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto organizou cozinhas para fornecer alimentos já prontos para o consumo. Já são 27 cozinhas espalhadas pelo Brasil, atendendo entre 100 e 150 pessoas por dia com marmitas fartas para suprir almoço e jantar.

    A importância dos estoques públicos, mantidos pela Companhia Nacional de Abastecimento, órgão que se encontra completamente desmontado no governo Bolsonaro (CONAB), também esteve em pauta. Esses estoques asseguram o acesso da população a alimentos básicos como arroz e feijão a preços mínimos em épocas de estiagem ou problemas que comprometam a produção. Ainda sobre a produção de alimentos básicos no dia a dia do brasileiro, Ailin Aleixo trouxe o dado de que cerca de 80% dos alimentos cultivados atualmente são destinados à alimentação de animais. Com isso, a soja vai roubando espaço dos grãos que compõem o nosso prato a ponto de importarmos aproximadamente 45% do feijão consumido no Brasil.

    Para além de políticas públicas, propostas e soluções foram apresentadas como a mobilização das bases sociais para que haja uma atuação constante e continuidade de projetos independentes do governo. Um dado animador foi trazido por João Paulo Pacífico, ativista do mercado financeiro: apesar da enorme dificuldade em inserir o MST no mercado de ações – invertendo a lógica desse sistema no qual rico apoia rico -, 1.500 pessoas investiram no Movimento, apoiando a agricultura familiar. Responsável pelo cultivo de uma grande variedade de alimentos, o MST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil.

    Silvia Jeha também trouxe um relato animador: sua empresa, o viveiro de mudas orgânicas de hortaliças e plantas alimentícias não convencionais Sabor de Fazenda, registrou um aumento de 40% na procura por mudas durante a pandemia, puxado por pessoas que passaram a plantar hortas em casa.

    Ao centro, Guilherme Boulos conversa sobre a pauta da fome e da alimentação. Foto: Leandro Paiva

    Com uma escuta atenta, Boulos foi o último a falar, agradecendo o panorama trazido pelos participantes e colocando que apesar dos enormes desafios, havia ali também uma chama de esperança. “Ver que no meio do caos que tá o Brasil, no meio da tragédia que tá o Brasil, tem uma série de iniciativas acontecendo. Por mais que a gente saiba dessas iniciativas, conhecer mais de perto, poder quase visualizar, tocar, é algo muito importante”, frisou Boulos. Ele lembrou de políticas públicas importantes que foram criadas, como o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos e o PNAE – Política Nacional de Alimentação Escolar , que foram desmobilizadas durante o atual governo, e pontuou que o mesmo aconteceu com as políticas habitacionais. Seu contato com a fome foi através das famílias que compõem o MTST. Com a criação das cozinhas solidárias do MTST, sua atuação no movimento habitacional aproximou-se das pautas relacionadas à alimentação. “Nas cozinhas solidárias”, diz Boulos, “nós estamos disputando um outro modelo de sociedade, nós estamos disputando outros valores; e acho que isso tem que ser política pública, assim como várias iniciativas que foram apresentadas aqui, nós temos que trabalhar e lutar para que sejam políticas públicas”. Ao falar de políticas públicas, Boulos argumenta que sua candidatura ao governo de São Paulo acabaria ajudando para que o campo de esquerda ficasse dividido e por esse motivo, e também por entender a importância que vai ter mais do que nunca a disputa no congresso nacional, mudou a rota e decidiu que se lançará candidato a deputado federal. “O MTST ocupa terreno improdutivo e agora vai ocupar a política também.”

    O Levante Slow Food Brasil concorda quando Boulos diz que “a eleição é um momento não só para ganhar voto, porque a eleição é o momento em que as pessoas estão discutindo política, o país para pra discutir política no boteco durante a eleição. Por isso é uma oportunidade pra gente entrar nessa discussão fazendo uma disputa de mentes, de corações, de futuro, de projeto para o país. Eu acho que é esse o desafio enorme que a gente tem este ano”. E por isso vamos acompanhar o mais de perto possível as propostas dos candidatos e estar ainda mais próximos dos movimentos que lutam para levar alimento bom, limpo e justo para todos os brasileiros.

    Foto: Leandro Paixa

    Compuseram os relatos:
    Adriana Salay – pesquisadora de temas ligados à fome e hábitos alimentares;
    Ailin Aleixo – jornalista e criadora do portal VaiSeFood;
    Bel Coelho – chef de cozinha;
    Ediane Maria – Coordenadora do MTST e Raíz da Liberdade e pré-candidata a deputada estadual em SP pelo Psol;
    Fabio PaesServiço Franciscano de Solidariedade – Sefras;
    Fernanda Suemi – advogada e fundadora da Autonomia ZN;
    Glenn Makuta – representante da comunidade Levante Slow Food Brasil; 
    Guilherme Boulos – Professor, coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo e pré-candidato a deputado federal pelo Psol;
    João Grinspum Ferraz – doutor em História pela PUC de São Paulo e mestre em Ciências Políticas pela USP;
    João Paulo Pacífico – ativista do mercado financeiro e responsável pela operação financeira do MST;
    José Raimundo Ribeiro Jr. – representante da Associação dos Geógrafos Brasileiros (Seção São Paulo) no Conselho Municipal de Segurança Alimentar (COMUSAN); 
    Marcelo Buzetto – dirigente estadual do MST em SP;
    Marina Mattar – mestre em sociologia e estudante de direito;
    Neide Rigo – nutricionista, criadora do blog Come-se e referência em estudo e difusão das PANC; 
    Patty Durães – pesquisadora cultural e palestrante;
    Rodrigo Oliveira – chef proprietário do Mocotó;
    Silvia Jeha – nutricionista, herborista e especialista em cultivo orgânico de ervas e temperos da Sabor de Fazenda Ervas e Temperos
    Simone Gomes – cozinheira, ativista e educadora, membro do coletivo Banquetaço e da campanha Gente é pra Brilhar;
    Thiago Vinicius – produtor cultural do Campo Limpo na Agência Solano Trindade.

    Fonte feed: Via Feed Slow Food