sábado, março 2, 2024

Um frame do classicismo colonial pela câmera frontal

Leia também

O bolsonarismo anda de mãos dadas com a lógica de sociedade aos moldes do Brasil-colônia e desumaniza todos que não são homens brancos cisgênero ricos 

Quem um dia imaginou que um vídeo de 33 minutos seria capaz de capturar o cacoete colonial que sustenta o bolsonarismo? O que uma filmagem na perspectiva da câmera frontal enquanto um homem branco cisgênero hétero e classe média alta pode escancarar sobre a nossa sociedade? Sobretudo, que a nossa violência interseccional e secular, que nunca foi tímida, está mais escancarada do que nunca. 

No último sábado, dia 10, mais um pavoroso caso de desumanidade viralizou: uma publicação nas redes sociais do Jornalistas Livres, mídia independente em defesa da Democracia e Direitos Humanos, trouxe à tona o registro feito por Cássio Joel Cenali, em que o próprio humilha a diarista Ilza Ramos Rodrigues, ao negar fornecer marmitas a ela após afirmar que votaria em Lula, e não Bolsonaro, nas eleições de 2022. 

O vídeo pode ser assistido aqui. Confesso que, até decidir escrever esta crônica, eu não tinha tido coragem de vê-lo até o fim. Jornalistas também são sensíveis à violência, e pode ser bastante adoecedor e desalentador precisar estar por dentro de tantos acontecimentos escabrosos no dia a dia à brasileira. 

É importante ressaltar que tudo desde o início é um erro. A postura petulante de Cássio, com seu braço-pau-de-selfie captando seu rosto enquanto a outra mão está ocupada com a marmita que ele “humildemente” está entregando a moradores da periferia na cidade de Itapeva, São Paulo. 

Nenhum problema em entregar marmitas, afinal, comida no prato é um dos pilares do nosso fazer jornalístico aqui no Joio. Mas já passou da hora de entendermos que há uma relação de poder na situação, mesmo que seu coração esteja cheio de boas intenções. Fazer as pessoas em uma situação de vulnerabilidade serem filmadas, precisarem performar uma gratidão e chancelarem a sua bondade é cruel, egóico, tipicamente colonial – a tal síndrome de branco salvador, sabe? 

E também é raso, e, desatrelado a um entendimento social do problema da fome. Esse ato é mais paliativo do que resolutivo, e talvez sustente mais a miséria do que você possa imaginar. A escuta do episódio “As Escalas da Fome”, do podcast Prato Cheio, é obrigatória pra entendermos os sentimentos de quem experimenta a fome. A fala de Diego, uma das personagens do episódio, escancara a humilhação primeira em casos como o de Ilza: “Tem pessoa que doa cesta básica e tira foto com você para mostrar que tá te dando uma cesta básica. Não faz de coração. Tem pessoa que ainda escolhe a pessoa para poder tirar foto e ir tirar cesta. Não é todo mundo”. 

Em um conteúdo lançado em nossas redes, em parceria com a página @comidaeeconomia (veja aqui e aqui), o economista Valter Palmieri Jr., doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, reúne em quatro pontos o pensamento da Direita sobre a fome. Todas encaixam perfeitamente na performance de Cássio, mas um, particularmente, traz a questão de forma mais latente: a ideia de que “O Estado atrapalha a caridade privada”. 

Alinhado à corrente ideológica de Jair Bolsonaro, não é muito inseguro arriscar que ele deve se posicionar contra programas assistencialistas, como o Bolsa Família. Esse paradoxo bebe do argumento de Milton Friedman, ícone do neoliberalismo, no livro Capitalismo e Liberdade, que defende que o melhor modo de lidar com a pobreza e a fome é através do estímulo à liberdade individual, que impulsiona a caridade privada. Não é por acaso que Friedman tenha se imortalizado com a frase “Não existe almoço grátis.” Entretanto, a alimentação é um direito, previsto na Constituição brasileira, e só a caridade não é capaz de dar conta. A fome é uma rachadura da estrutura brasileira; dá pra remendar só ela, mas sabemos que, sem mexer na estrutura, o problema persistirá. 

Depois da humilhação maquiada de benfeitoria, alcançamos a humilhação despudorada. Cássio mete um “DataPovo”, e decide perguntar pra Ilza: 
– A senhora é Bolsonaro ou Lula?. 
Ilza, um pouco acanhada:
– Eu sou Lula. 
Cássio: 
– Lula? (risos) Então, tá bom, aqui ó: ela é Lula. A partir de hoje não tem mais marmita. É a última marmita que vem aqui, a senhora peça pro Lula agora, beleza? (…) Beleza, gente! 

É indigno o lugar em que Ilza é colocada sem qualquer possibilidade de defesa. Cássio, com peitinho estufado de galo, faz questão, a todo o momento, de performar para o interlocutor. Ele olha pra câmera, diz “aqui ó”, “beleza, gente?”, “beleza pessoal”, mirando à audiência que concordará com a punição que ele estabelece. Afinal, é assim que o bolsonarismo lida com o outro: na base do subjulgamento e do extermínio. 

Ele sustenta a pose de senhor de engenho, fazendo dona Ilza de exemplo e aviso: quem seguir esse caminho, vai receber essa punição. Dona Ilza mal reage à violência espetacularizada: acanha-se, com voz incrédula e a marmita na mão, e expressa um pouco do medo de ter sofrido uma agressão por responder a uma pergunta que lhe foi feita. Penso em tudo que ela pode ter pensado: “Maldita mania de falar o que penso!”, “Fui falar de política e fiquei sem comida… e agora?”, “Será que não deveria ter deixado essa passar?”. Cássio talvez olhe mais pra lente frontal do que pros olhos de Ilza, e não retira seu sorriso sádico em nenhum momento. Sim, zero pingo de vergonha na cara. 

A história brasileira tem cartas marcadas há muito tempo. Com a identificação de Cássio, ele se mostra um retrato fiel do bolsonarismo. É empresário do agronegócio – esse que alimenta o mundo, rs – e leva nas costas uma série de processos na Justiça, tais como não pagamento de impostos e recebimento indevido do Auxílio Brasil. Dona Ilza, diarista, é tela pra projeção das expectativas coloniais e escravocratas do lugar da mulher cis e do lugar das diaristas, profissionais-cômodo de muita gente classe média alta que embaralha século XXI com século XVIII. Gente que não limpa a própria privada, que não se responsabiliza por sua própria sujeira. 

Em declaração concedida ao jornal Folha de S. Paulo, Ilza conta que “entrou em desespero quando viu seu rosto em um vídeo que circulava nas redes sociais”. Em suas palavras: “Fiquei sem reação. O jeito que ele falou mexeu com a minha mente, não é brincadeira. O que ele fez foi me humilhar (…). Eu não posso nem ver o [vídeo].” Neste momento, a repórter nos avisa que Ilza encobre seus olhos com as mãos, antes de pontuar: “Mexeu muito no meu psicológico.” 

A dor do classicismo e da misoginia atualizadas desde 1500 no Brasil mexe com a cabeça. A insegurança alimentar e as privações e as humilhações que ela impõe trazem consequências graves pra saúde mental de quem as vive; dores, traumas, transtornos, quando não tentativas de suicídio. O que fica depois dessa experiência? Ilza terá comida no prato e auxílio psicológico para se recuperar dessa violência? E como vamos nos recuperar desse trauma geracional em que 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil e quase 60% da população se encontra em algum grau de insegurança alimentar

Ao fim, Cássio gravou um vídeo de desculpas, e a análise do discurso demonstra a incapacidade de apresentar qualquer sentimento de alteridade e empatia. Cássio se diz “arrependido”, mas frisa a “infelicidade de ter gravado o vídeo”. Ou seja, a infelicidade é ter sua arrogância colonial exposta? E não as palavras, a ameaça e a violência simbólica cometidas a Ilza? Homem forte e resiliente que é, ele afirma sem pestanejar que toda a quarta-feira faz “60 marmitas”, com seu próprio dinheiro, sem recursos de políticos, e que “não vai parar”. “Eu só quero a caridade”, suplica. Não, Cássio, você não quer só caridade. Você quer a barbárie, a miséria, a desigualdade, o colonialismo, Bolsonaro, e tudo aquilo que te sustenta no topo da pirâmide social, e que a mantêm cristalizada. Mas, pro seu azar, nós queremos mais do que caridade. 

Fonte feed: Via Feed O Joio e o Trigo