quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Mixologista Néli Pereira lança livro ‘Da Botica ao Boteco’

Leia também

Pão Recheado com Atum: pra fazer em casa

Rendimento: 12 porçõesTempo de Preparo: 90 minutosCalorias: 175 a...

Aracaju recebe a exposição ‘O Fantástico Mundo Marinho’

Exposição "O Fantástico Mundo Marinho" chega ao RioMar Aracaju...

Pré-Caju 2024 será lançado no dia 22 de março

Durante a solenidade, serão anuciadas a programação e demais...

Ervas, cascas e raízes brasileiras rompem a fronteira da medicina popular, à qual historicamente estiveram confinadas, e reluzem em coquetéis nacionais.

Em “Da Botica ao Boteco”, livro recém-lançado pela Companhia de Mesa, Néli Pereira instiga o leitor a descobrir a carqueja, a jurubeba, a catuaba, que compõem o cosmos de sua pesquisa.

Seu fio condutor, inédito na bibliografia do país, é a investigação do sabor das plantas. São múltiplos experimentos em seu Espaço Zebra, em São Paulo, que levam a autora à compreensão de como elas se comportam embebidas em diferentes bases alcoólicas.

Néli recorre a referências acadêmicas para teorizar, por exemplo, sobre as garrafadas, um dos objetos centrais de sua trajetória.

Não é academicista, porém, a narrativa de sua obra, na qual realça uma linguagem literária porosa à oralidade (“a jurubeba é ‘tchubiruba’, rainha pop das garrafadas”); a interjeições (“ufa”, “caramba”, “amém”); a onomatopeias (o “ploc” do rompimento da casca amadeirada do urucum, ao melhor estilo “ninahortiano”).

Seu veio literário flerta com o romance em passagens luminosas nas quais conduz o leitor, junto dela, à casa-laboratório de Galeano e com ele conversa, por exemplo, no ano de 170.

Alcança um passado mais longínquo quando investiga a história ancestral e a memória eurocêntrica. Parte dos faraós no Egito de 3.150 a.C., passa pela China da dinastia Zhou, chega à Grécia para trocar com Dionísio e Hipócrates, o “pai da medicina”.

Aterrissa no Brasil, sobrevoa os povos originários, cuja natureza é uma extensão do lar, enxerga os colonizadores invadirem o território, os jesuítas e suas boticas.

Néli invoca a carta de Pero Vaz de Caminha, à época do Descobrimento, e personagens como o padre Anchieta e o marquês de Pombal para explicar a disseminação e a permanência das boticas no Brasil e os remédios elaborados em grandes tonéis, geralmente com ervas curtidas em álcool.

Uma só convicção atravessa todas as épocas, países e personagens rememorados na obra: não existe Brasil sem planta. O mesmo vale para o conceito do cruzo —remédio ou coquetel? Guiada por essa pergunta, Néli busca semelhanças das boticas, dos monastérios, e dos apotecários.

O livro é, felizmente, entrecortado por textos dedicados a ingredientes como jucá, urucum e boldo, nos quais estão expostas informações enciclopédicas, que servem de preliminares para relatos autorais.

O do butiá —um coquinho arredondado, de polpa amarelada e azedinha— acolhe uma cena de sua infância, no jardim em frente à sua casa, onde catava os frutos para comer, e suas fibras ficavam presas aos dentes.

Embora haja receitas bem amarradas, intervaladas por técnicas e dicas de preparo, não se trata de um livro de receitas de coquetéis brasileiros. A autora se propõe a municiar o leitor de conhecimento sobre ervas, cascas, raízes e técnicas de preparo, para capacitá-lo a fazer suas próprias alquimias.

A pesquisadora se cercou de métodos e cuidados. Conversou com especialistas em botânicos e farmacobotânicos para compreender as respectivas toxicidades das plantas. Descobriu onde achar esses ingredientes da cultura popular, até ficar segura de sua procedência.

Explorou como usá-los. Fez testes para destrinchar seus sabores e compreender como se manifestam em diferentes bases alcoólicas. Uma vez identificados, passam a compor um repertório sensorial que lhe dá mais possibilidades de criação e complexidade à coquetelaria brasileira.

Ao longo desse compilado de plantas brasileiras, a autora vai estimulando o leitor. Faz florescer um interesse sobre elas —um interesse que pode colaborar para a manutenção de várias espécies ameaçadas de extinção. A coquetelaria ergue-se como agente protecionista, a preservação por meio do uso.

Ela mesma provoca e alimenta a discussão ao pontuar a exploração extrativista predatória por parte da indústria farmacêutica e pelo manejo inadequado que a população faz dessas plantas, que deságua num empobrecimento do gosto e corrói a nossa biodiversidade.

Não queremos que a catuaba, por exemplo, “vire um souvenir de mais um bioma que ‘tinha mas acabou'”.

No retrospecto, mostra como as ervas estão conectadas às oferendas, às mandingas, ao benzimento, rituais considerados bruxarias perigosas pelos portugueses.

Néli comporta-se como um cozinheiro moderno —procura ingredientes frescos e tenta imprimir sua própria identidade aos drinques, e personalizá-los. Surge como mediadora social entre produtor (catador, colhedor) e consumidor e, por meio de sabores que redescobre no Brasil, reencanta o mundo.

Em “Da Botica ao Boteco”, a autora fortalece a noção de que nenhum ingrediente tem vocação única —ele depende do valor que o trabalho humano lhe atribui—, dá densidade ao conceito de território e nos abastece com alguma consciência do que faz do Brasil, Brasil.

Fonte feed: Via Feed Folha de S.Paulo