Cacau sergipano: de aposta desacreditada a nova frente produtiva no estado

após deixar a construção civil, agricultor no sul de Sergipe revela como o microcrédito viabilizou o cultivo, transformou a renda da família e impulsionou a expansão da cultura do cacau

Quando decidiu cortar todo o sítio de laranja e plantar cacau, o agricultor Josinaldo Cândido ouviu de muitos que era loucura. Em Indiaroba, no sul sergipano, a cerca de 100 km da capital,  a mudança parecia arriscada demais para uma cultura que, até então, tinha endereço quase fixo no imaginário nordestino: o sul da Bahia.

Mas ele insistiu.

Na época, dividia a rotina entre o sítio e a construção civil. Trabalhava como pedreiro enquanto tentava manter a produção de laranja, atividade tradicional na região. A praga da mosca-negra atingiu o pomar e comprometeu a renda da família. Foi nesse momento, com incentivo da mãe, que decidiu cortar os pés de laranja e começar do zero com o cacau. “Os conhecidos aqui me chamavam de louco por cortar um sítio de cinco anos. Ninguém conhecia o cacau aqui na região, só pela televisão”, relembra.

Josinaldo continuou indo para as obras durante o dia e cuidando das mudas no tempo que restava. O retorno não veio rápido, afinal, o cacau exige tempo, manejo e paciência. Foram cerca de quatro anos até a produção ganhar estabilidade. Enquanto isso, as dores na coluna, acumuladas em anos de trabalho pesado, se intensificaram. O corpo começava a impor limites que a necessidade financeira ainda não permitia respeitar.

O ponto de mudança veio quando a lavoura passou a gerar renda suficiente para sustentar a casa, após anos de dedicação e do apoio de crédito rural que ajudou a manter o plantio até a produção.

“Graças a Deus, hoje eu tenho qualidade de vida. Já está sendo bom e vai ser melhor ainda. O cacau dá essa certeza de que, se você investir e se dedicar, ele dá retorno. E não é só para se manter, dá para pensar em crescer, em ampliar a área”, afirma.

Diante dos pés de cacau que cultiva em Indiaroba, Josinaldo Cândido ergue as mãos em agradecimento pela colheita e pela mudança de vida que veio com o fruto. Foto: Islaine Barbosa.

O que era complemento virou sustento. Josinaldo deixou definitivamente a construção civil. 

“Agora, quando fico doente ou indisposto, posso tirar o dia para descansar e depois voltar para a roça. Antes do cacau, eu não podia escolher”, diz.

Hoje, nos três hectares cultivados, a expectativa é colher cerca de 2.500 quilos de cacau neste ano. O preço do quilo costuma girar entre R$ 14 e R$ 15, segundo o produtor. 

Pensando na expansão da produção, Josinaldo começou a dar outro passo dentro da própria atividade: um viveiro de mudas de cacau na propriedade. A iniciativa se tornou uma nova fonte de renda e também passou a atender produtores da região, que antes precisavam buscar mudas em outros municípios ou até em outros estados.

Foto: Islaine Barbosa

“O viveiro também é mais uma renda. Além de plantar, agora também vendo mudas para quem quer começar”, conta.

Entre as variedades cultivadas, a principal aposta é o cacau clonado, conhecido como CCN 51, considerado mais produtivo e resistente. Segundo Josinaldo, a diferença na lavoura é perceptível.

“Eu já plantei do comum, mas o clonado é melhor. Produz mais e dá mais segurança para quem está começando”, afirma.

Foto: Islaine Barbosa

Com a produção em crescimento e novas mudas saindo do viveiro, Josinaldo já pensa nos próximos passos: ampliar a área plantada e investir ainda mais na lavoura que, poucos anos atrás, muitos diziam ser uma aposta arriscada.

Entre o plantio e a colheita

Para muitos agricultores familiares, investir em uma nova cultura sem acesso a financiamento é um desafio difícil de superar. Com recursos próprios limitados, iniciativas como o plantio de cacau, que pode levar anos até a primeira colheita, muitas vezes simplesmente não saem do papel.

Foi nesse momento que o crédito entrou na história de Josinaldo e mudou o rumo do plantio.

Ele acessou recursos por meio do Agroamigo, programa de microcrédito rural do Banco do Nordeste voltado a agricultores familiares, dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

No caso de Josinaldo, o financiamento foi decisivo para transformar o cacau em qualidade de vida para a família.

“Se não fosse esse projeto no Banco do Nordeste, eu não teria esse plantio. Eu trabalhava de pedreiro e o que ganhava era só para se manter. Não sobrava para investir na roça”, explica.

O diferencial, segundo ele, está nas condições de pagamento.

“Você pega um valor e tem três anos para começar a pagar. São três parcelas. Isso dá um fôlego para trabalhar e esperar a lavoura produzir”, acrescenta.

O crédito voltado para produtores de cacau na região começou a ser ofertado em 2023. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, cerca de R$ 640 mil já foram financiados pelo programa para investimentos na cacauicultura em Sergipe, segundo o Banco do Nordeste.

De experiência isolada a movimento regional

Nos últimos dois anos, o número de produtores de cacau no estado saltou de 17 para 52, segundo dados da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro). No mesmo período, a produção de amêndoas passou de 9,5 toneladas, em 2024, para 15,9 toneladas em 2025.

Além disso, em 2019, o Ministério da Agricultura e Pecuária aprovou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático para o cultivo do cacau na região. O instrumento identifica áreas e períodos de plantio com menor risco climático para a lavoura. Atualmente, a atividade tem se concentrado principalmente em municípios do sul sergipano, onde produtores e técnicos apontam condições favoráveis ao cultivo.

Com a lavoura em expansão, também surgem canais de comercialização. Parte das amêndoas já é destinada a empresas do setor, como a Cargill Alimentos, que mantém um posto de compra no município de Arauá, também no sul do estado,  e adquire diretamente a produção de agricultores da região.

Além da venda das amêndoas, pequenas iniciativas de agregação de valor já aparecem nas próprias propriedades. Segundo o diretor de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa da Emdagro, Jean Carlos Nascimento, algumas unidades produtivas já diversificam o aproveitamento do fruto.

“Hoje acompanhamos cerca de cinco propriedades onde foram implantadas mudas e sistemas de irrigação. Em Arauá, por exemplo, alguns produtores já comercializam, além das amêndoas, o mel de cacau extraído da polpa do fruto”, afirma.

Para a assistência técnica, o surgimento dessas iniciativas indica que a cultura avança para além do plantio, abrindo espaço para novas etapas da cadeia produtiva no estado.

Do fruto aos derivados

O avanço do cultivo de cacau em Sergipe também passa a ganhar forma em feiras da agricultura familiar e em eventos do agronegócio pelo estado.

Morador de São Cristóvão, na região metropolitana de Aracaju, o agricultor, apicultor e caprinocultor Silvio Santos Carneiro encontrou no cacau uma nova oportunidade de diversificação da produção.

Foto: Islaine Barbosa

Ele compra amêndoas de produtores do sul sergipano, principalmente em Arauá, onde um primo mantém plantação da fruta, e também de agricultores como Josinaldo, em Indiaroba. Segundo Silvio, muitos produtores da região acabam se ajudando, criando uma rede de cooperação que fortalece a cadeia produtiva do cacau que começa a se formar no estado.

Entre os produtos que ele comercializa estão o mel de cacau, o mel de abelha combinado com nibs de cacau — pequenos pedaços da amêndoa torrada — além do próprio nibs e do pó de cacau, utilizados em receitas e preparações artesanais.

Foto: Islaine Barbosa

Segundo ele, a aceitação tem sido muito positiva. “Tem muita gente que já liga antes da feira perguntando quando a gente vai e pede para separar os produtos”, conta.

Para chegar aos derivados, o processo passa por algumas etapas. Depois de retiradas do fruto, as amêndoas passam por fermentação em cochos de madeira e são secas ao sol. Em seguida, são torradas e trituradas, dando origem ao nibs e ao pó de cacau 100%.

Já o chamado mel de cacau é extraído da polpa do fruto por meio de uma prensa e resulta em um líquido leve e naturalmente adocicado.

O contato com produtores da região sul acabou influenciando também os planos de Silvio. Entre eles está Josinaldo, que se tornou uma referência para quem começa a apostar no cultivo do cacau.

“Ele foi um dos primeiros que começou a plantar aqui no estado. A gente vê que está dando certo. Hoje ele já tem até o viveiro, e isso anima a gente também”, afirma.

Com a procura crescente pelos derivados do fruto, Silvio já considera profissionalizar o plantio de cacau no próprio sítio, em São Cristóvão, para produzir parte da matéria-prima que hoje compra de outros agricultores.

Para ele, esse movimento também ajuda a mudar a percepção sobre a cultura no estado. “Muita gente pensa que o cacau só vem da Bahia ou do Amazonas, mas Sergipe também tem potencial”, afirma.

O presente redesenhando o futuro

Em Sergipe, a cacauicultura passa a ganhar forma como uma nova frente de produção no campo. O que até poucos anos parecia uma experiência isolada passa a desenhar os primeiros contornos de uma cadeia produtiva no estado.

A expansão do cultivo já se reflete tanto nas áreas plantadas quanto nas iniciativas de beneficiamento e produção de derivados do fruto. Com condições favoráveis ao plantio e acesso a crédito rural, a cultura surge como uma alternativa de diversificação para produtores que buscam ampliar ou reinventar a produção agrícola.

Se antes o cacau parecia distante da realidade sergipana, hoje ganha espaço e desperta o interesse de novos agricultores. A cultura na ainda dá os primeiros passos, mas os sinais de crescimento indicam que o fruto pode ganhar cada vez mais presença na paisagem agrícola do estado.

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