Mudanças climáticas e El Niño podem afetar setor de AFL

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Mudanças climáticas e El Niño podem afetar setor de AFL

De Vinicius Melo
Vinicius Melo
Agência de Notícias Abrasel

Secas, calor intenso e chuvas excessivas afetam a oferta e o preço de ingredientes, pressionam as margens de empreendedores e podem chegar ao consumidor 

O preço de pratos e bebidas pode ser influenciado por fatores que começam muito antes de o ingrediente chegar à cozinha. Mudanças climáticas, como secas prolongadas, calor intenso e chuvas excessivas afetam safras, dificultam a pesca e alteram a disponibilidade de alimentos.  

Para bares e restaurantes, essas mudanças representam custos maiores e a necessidade de decidir entre reajustar o cardápio ou absorver parte das despesas para não afastar os clientes. 

O cenário ganha relevância diante das projeções para o El Niño em 2026. O boletim de setembro do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), elaborado com outros seis órgãos federais, indicou 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre de outubro a dezembro.  

A previsão aponta riscos de seca e incêndios no centro-norte do país e de chuvas acima da média, com possibilidade de cheias, no Sul. Os impactos, porém, dependem da evolução das condições meteorológicas em cada região. 

Para a líder de ASG da Abrasel, Luiza Campos, antecipar cenários climáticos e planejar a operação são medidas importantes para reduzir os prejuízos. “O El Niño não afeta o país de forma igual, e é justamente essa variação regional que exige atenção redobrada do empresário. Quem antecipa o cenário e ajusta sua operação chega ao segundo semestre com menos prejuízo e com um cliente mais bem atendido, mesmo em condições adversas”, avalia. 

Ingredientes mais caros pressionam as margens 

No Namazônia, restaurante de culinária amazônica em São Paulo/SP, o proprietário Pedro Amaral relata mudanças na disponibilidade de ingredientes e nas épocas de safra de algumas frutas. Como a proposta da casa depende de produtos específicos da região Norte, a escassez dificulta a manutenção do cardápio e pode elevar os custos de preparação. 

“Quando há escassez, os insumos sobem muito de preço, e, para conseguir manter o cardápio, a gente acaba tendo que trabalhar com preço médio. Nesses períodos de escassez, a gente acaba absorvendo parte desse custo sem repassar ao cliente, porque, se a gente repassar tudo, é capaz de assustar essa clientela, porque os preços realmente ficam muito altos”, explica. 

Um dos exemplos citados pelo empresário é o açaí, utilizado puro no restaurante. Segundo Pedro, o custo do insumo aumentou nos últimos dois anos. Ele ressalta que o resultado não está relacionado apenas às alterações climáticas, mas também ao aumento da procura pelo produto. 

O estabelecimento precisou reajustar preços no ano passado, mas optou por não fazer um novo repasse relacionado a esse insumo em 2026. A decisão, segundo o proprietário, reduz a margem financeira do negócio. A substituição também não é simples, pois em uma casa especializada em gastronomia amazônica, trocar ingredientes característicos pode comprometer a proposta de oferecer receitas fiéis à origem. 

O pescado é outro produto vulnerável. De acordo com Pedro, tanto a seca quanto a cheia dos rios podem dificultar o trabalho dos pescadores e a obtenção dos peixes. Jambu, mandioca e frutas regionais também podem sofrer com o clima e períodos prolongados de calor, falta de chuva ou precipitação excessiva. 

Clima também afeta carnes, hortifrútis e o movimento 

Em Porto Alegre/RS, a Churrascaria e Galeteria Komka enfrenta desafios relacionados tanto ao abastecimento quanto à frequência de clientes. O proprietário, Edesio Komka, explica que os efeitos das condições climáticas e do El Niño chegam ao negócio por diferentes caminhos. Chuvas intensas podem dificultar o acesso ao restaurante, enquanto alterações na produção agrícola afetam a oferta e os preços de ingredientes. 

“Os produtos mais vulneráveis são os hortifrútis. A gente sente a falta desses produtos com o excesso de chuva ou com a falta de chuva, mas a gente também faz um acompanhamento do preço dos alimentos usados na ração. Isso acaba encarecendo muitas vezes a carne de porco, quando falta milho, ou do frango”, conta Edesio. 

O empresário afirma que, quando considera temporária a elevação de preços, prefere manter o cardápio e absorver o aumento de custos para evitar prejuízos ao movimento. A experiência do restaurante também evidencia os limites do planejamento. Komka mantém uma caixa-d’água capaz de sustentar o estabelecimento por cerca de dois dias de desabastecimento e dispõe de gerador para preservar parte dos equipamentos em caso de interrupção prolongada de energia.  

Ainda assim, manter toda a operação funcionando exigiria um investimento que ele considera elevado diante das perdas estimadas com um ou dois dias sem atendimento. 

Cervejaria gaúcha sofre impactos das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, provocadas por mudanças climáticas | Foto: 4Beer POA
Cervejaria gaúcha sofre impactos das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, provocadas por mudanças climáticas | Foto: 4Beer POA

Planejamento ajuda a reduzir os impactos 

Diante da possibilidade de novos episódios de escassez gerados por mudanças climáticas, o Namazônia já começou a se preparar para 2027. Amaral relata que o restaurante pretende manter estoques reguladores maiores de alguns produtos e reservar recursos para emergências. A estratégia, contudo, não vale para todos os ingredientes, principalmente aqueles que precisam chegar frescos à cozinha. 

O estabelecimento também estuda ajustes nas escalas de funcionários para situações de falta de energia e interrupção das atividades. O objetivo é reduzir perdas sem comprometer o fluxo de caixa nem as obrigações financeiras da empresa. 

No caso da Komka, a gestão precisa equilibrar a imprevisibilidade climática com a realidade dos produtos perecíveis e do orçamento disponível. Como as previsões podem mudar e os avisos de eventos capazes de afetar o movimento nem sempre chegam com antecedência suficiente, o empresário mantém o padrão de compras e a escala habitual de funcionários. 

As experiências mostram que os impactos climáticos não se traduzem necessariamente em aumento imediato no preço final. Em alguns casos, o estabelecimento absorve parte do custo, em outros precisa reajustar valores para preservar a viabilidade do negócio.  

Para o consumidor, isso significa que pratos e bebidas podem ficar mais caros quando ingredientes essenciais escasseiam, embora a dimensão e o momento dos repasses variem conforme o produto, a região e a capacidade de cada restaurante de absorver as despesas.

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