De Nara Boechat
Gastronomia – VEJA
A vitória-régia sempre esteve associada à paisagem amazônica. Para Dulce Oliveira, porém, a planta ganhou outro significado. Cozinheira, ribeirinha e empreendedora de Santarém (PA), ela transformou o jardim de vitórias-régias que cultivava em frente de casa em um negócio que reúne gastronomia, turismo e conhecimento sobre a floresta.
A história foi contada pela própria Dulce durante o IV Fórum Varanda da Amazônia, iniciativa de Fafá de Belém realizada nesta quarta-feira, 7, na capital paraense. Ela lembrou que sua trajetória profissional começou muito antes de descobrir a vocação gastronômica da planta. Ainda criança, foi entregue para outras famílias e, ao longo da vida, passou por diferentes trabalhos. Em Belém, vendeu salgados e exerceu outras atividades, como serviços de babás e empregada doméstica, até chegar a Santarém no início dos anos 2000.
Depois de trabalhar como auxiliar de serviços gerais em uma empresa de petróleo, foi demitida e passou a vender lanches em um carrinho. Mais tarde, concluiu o ensino médio e conseguiu uma vaga na Marinha do Brasil, onde trabalhou por anos.
Foi o retorno à comunidade onde o marido nasceu que mudou novamente sua trajetória. A ideia inicial era simplesmente deixar a frente da casa mais bonita. O casal começou a cultivar as vitórias-régias no lago diante da residência. Com o tempo, Dulce passou a observar a relação dos animais com a planta e começou a se perguntar se ela também poderia ser consumida. “Nunca imaginei que eu pudesse virar pioneira em transformar essa planta em alimento”, afirmou durante o fórum.
A resposta veio na cozinha. Dulce começou a experimentar diferentes partes da vitória-régia e criou receitas. Hoje, seu menu degustação reúne mais de 20 preparações. Há registros de pratos como moqueca, tempurá, massas, geleias, picles, paçoca, rabanada, tortas, bolos e até pipoca feitos com partes da planta.

Diante das dúvidas sobre a segurança e as propriedades da planta, Dulce procurou pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Eu, sem nenhum conhecimento, procurei uma universidade federal para me ajudar com uma tabela nutricional sem sequer eu saber que era possível fazer uma tabela nutricional de vitória-régia”, contou. A parceria com pesquisadores ajudou a dar respaldo científico ao trabalho: estudos apontam o potencial nutricional da vitória-régia, classificada como uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional).
Antes disso, porém, Dulce precisou enfrentar a desconfiança de quem não entendia por que alguém estava colocando no prato uma planta conhecida principalmente pela beleza de suas flores. Ela contou que acabou ganhando um apelido por causa da insistência no projeto: “Eu virei a doida da vitória-régia”. A crítica, segundo ela, nunca foi suficiente para fazê-la desistir. “Quando você acredita em você, meu amor, ninguém te para”, disse.
A experiência acabou transformando a própria casa em atração turística. O espaço, conhecido como Jardim Vitória-Régia, no Canal do Jari, recebe visitantes interessados em conhecer as plantas e experimentar as receitas. Dulce conta que, em determinado momento, precisou inclusive impor limites ao número de visitantes. Segundo ela, apenas em julho recebeu 228 pessoas em sua casa entre 10h e 14h.
O negócio também passou a beneficiar outras mulheres da comunidade. Atualmente, quatro trabalham diretamente com Dulce e outras duas vêm de uma comunidade vizinha. Além do trabalho no espaço, elas podem levar seus próprios produtos para vender aos visitantes. Para a empresária, o sucesso do projeto não está apenas em transformar uma planta amazônica em comida. Está também em criar possibilidades para quem vive na região. “Se nós não podemos ter as mulheres na nossa frente, pelo menos vamos colocar elas no fundo”, afirmou.
Ao tentar definir o próprio caminho, ela encontrou uma comparação curiosa com outra espécie amazônica: o coco. “Ele tem uma casca grossa. E você passa… não tem como se você não tiver uma boa ferramenta para quebrar. Quando você consegue atingir a parte mais maravilhosa do coco, você tem uma infinidade de possibilidades”, disse.
A metáfora serve também para a própria história. Dulce atravessou uma trajetória marcada por dificuldades, trabalhos diferentes e muitos “nãos” até transformar uma planta que crescia diante de sua casa em alimento, atração turística e fonte de renda. “O pioneirismo é uma mata fechada onde do outro lado estão as possibilidades”, concluiu.
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