Falta de mão de obra no Brasil: de quem é a culpa?

Falta de mão de obra no Brasil: de quem é a culpa?

Por Roberto James*

A grande dúvida de empresários e varejistas hoje é: onde encontrar mão de obra qualificada ou, ao menos, disposta a trabalhar? Desde 2024, venho pesquisando a crescente dificuldade de contratação e a redução da oferta de trabalhadores.

Muitas vezes, a resposta imediata aponta para o Bolsa Família e outros auxílios governamentais. No entanto, aprofundando a análise, identificamos quatro fatores que influenciam essa escassez: (1) Bolsa Família, (2) Uber e Uber Moto, (3) Geração Z e Geração Nem-Nem (jovens que nem estudam nem trabalham) e (4) crescimento do PIB impulsionado por obras públicas.

Entre esses fatores, o mais determinante tem sido a ascensão do trabalho autônomo por aplicativos. O Bolsa Família, embora tenha tido crescimento desde 2018, apresenta queda no número de beneficiários desde 2023, o que indica que não é o principal responsável pela redução da mão de obra disponível.

A busca pelo trabalho autônomo cresceu entre jovens de 18 a 35 anos, faixa etária mais desejada pelas empresas. A facilidade de entrada, flexibilidade e sensação de independência são atrativos fortes. Um motorista de aplicativo relatou que, sem metas ou disciplina rígida, consegue faturar até R$200,00 brutos por dia, enquanto sua diária na CLT não passava de R$45,00. Outro motorista mencionou que não poderia voltar ao emprego formal, pois assumiu financiamentos e precisa manter sua renda variável.

O número de motoristas de Uber Moto quadruplicou desde 2022, e o 99 Moto cresceu cinco vezes no mesmo período. Essa tendência revela que a decisão de migrar para o setor autônomo não se dá apenas por insatisfação com os salários do comércio, mas também pela falta de atratividade do trabalho formal, mesmo com benefícios como FGTS e aposentadoria.

Além disso, as novas gerações têm um perfil diferente. A Geração Z e os Nem-Nem desafiam o modelo tradicional de trabalho, influenciando tanto a oferta de mão de obra quanto o consumo. O senso comum tende a culpar o Bolsa Família, mas os dados mostram que outros fatores estruturais e silenciosos são os reais responsáveis por essa transformação.

O desafio das empresas não é encontrar um único culpado, mas compreender essa nova mentalidade e adaptar seus modelos de atração e retenção de talentos.

*Roberto James é mestre em psicologia, especialista em comportamento de consumo e em criação de estratégias de vendas. Palestrante e autor dos livros O consumidor tem pressa: corra com ele ou corra atrás dele e Vivendo o varejo americano: uma viagem no coração do consumo.

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