De Sergio Ruiz Luz
Gastronomia – VEJA
No passado, parecia improvável imaginar vinhos de alta qualidade produzidos em estados como Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Bahia ou Pernambuco. A barreira climática representava um desafio aparentemente intransponível. As uvas são colhidas no verão, o que funciona na maior parte do mundo, mas não funciona em algumas partes do país. Nessa época, o clima quente e as chuvas constantes por aqui não harmonizam com as necessidades dos viticultores. Um agrônomo mineiro tentou resolver o problema, aplicando, na prática, no Sudeste, um plano que parecia maluco, fruto de sua tese de doutorado.
A ideia era enganar as videiras para contrariar séculos de tradição vitícola. De que forma isso seria possível? A sacada do profissional em questão, Murillo de Albuquerque Regina, foi inverter o ciclo natural das plantas. Em vez de chegarem ao ponto de maturação no verão, as videiras passaram a ser preparadas para a colheita no inverno, de forma a aproveitar o que o Sudeste tem de melhor nesse período: dias ensolarados, noites frias e ausência de chuvas durante a maturação.
O experimento de Murillo começou há exatos 25 anos, com o plantio das primeiras videiras preparadas com essa técnica em Três Corações, no interior mineiro. Os primeiros resultados foram animadores e a inovação, batizada de dupla poda, rapidamente ganhou escala comercial e mudou a geografia do vinho brasileiro. Regiões tradicionalmente associadas ao café passaram a produzir Syrahs, Cabernet Francs e outras variedades premiadas internacionalmente, atraindo investimentos, multiplicando vinhedos, impulsionando o enoturismo e criando uma nova economia em torno da vitivinicultura.
Com justiça, Murillo é reconhecido como o pai dessa nova fase do vinho brasileiro e não disfarça o orgulho pela impressionante revolução provocada pela dupla poda. Como é o sonho de todo grande acadêmico, ele comemora o fato de sua tese de doutorado ter se transformado em realidade, gerando grandes frutos econômicos. “Menos artigo científico, mais vinho na garrafa”, disse ele durante a entrevista recente que concedeu ao programa AL VINO, da VEJA+TV (confira aqui o episódio).

A nova técnica deu origem a mais de 200 projetos de vinhos de inverno, o nome do produto nascido por meio do manejo da dupla poda, espalhados pelo Sudeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste. Neste ano, o concurso inglês Decanter World Wine Awards, um dos mais respeitados do mundo, registrou o melhor desempenho da história do Brasil no evento: foram 221 medalhas, das quais 160 conquistadas por vinhos de colheita de inverno. As três medalhas de ouro obtidas pelo país vieram justamente de rótulos produzidos com a técnica da dupla poda: o Syrah Gran Reserva Colheita de Inverno 2024 e o Signature Cabernet Franc 2023, ambos da Casa Geraldo, em Minas Gerais, e o Udu de Coroa Azul Grande Reserva Cabernet Franc 2023, da Vinícola São Patrício, em Goiás.
É possível distinguir, no paladar, um vinho de inverno de um vinho produzido pela técnica tradicional? Segundo Murillo, sim. Para quem prova às cegas, os vinhos de inverno costumam revelar uma assinatura bastante característica. “São vinhos mais concentrados, com maior estrutura, cor intensa e excelente equilíbrio entre taninos e acidez”, explica o agrônomo. A combinação de dias ensolarados, noites frias e baixa umidade durante a maturação favorece a síntese de polifenóis, responsáveis pela cor, pela estrutura e pela profundidade dos vinhos, ao mesmo tempo em que preserva a acidez, conferindo frescor e longevidade. Embora muitos rótulos apresentem graduação alcoólica um pouco mais elevada, reflexo da maturação lenta e completa das uvas, Murillo afirma que a nova geração de vinhos de inverno já busca um perfil mais equilibrado, com exemplares de Syrah chegando ao mercado com 12,5% a 13% de álcool, sem abrir mão da concentração.
Toda inovação importante também desperta desconfiança. Ao longo desses 25 anos, o vinho de inverno acumulou admiradores e críticos. Há quem questione se vinhedos conduzidos pela dupla poda alcançarão a longevidade das grandes videiras europeias. A resposta, por enquanto, ninguém tem. O primeiro vinhedo comercial implantado com a técnica foi plantado em 2004 e completa agora 22 anos em plena produção — um excelente sinal, embora insuficiente para comparações com vinhas de 80 ou 100 anos. Essa é uma resposta que apenas o tempo poderá oferecer.
Também há quem veja na dupla poda um manejo excessivamente intervencionista, mas a prática mostra justamente o contrário na fase mais sensível da videira. Como a maturação ocorre durante a estação seca, a pressão de doenças fúngicas diminui drasticamente, reduzindo a necessidade de aplicações fitossanitárias quando a uva está prestes a ser colhida.
Isso significa que todas as dúvidas foram respondidas? Evidentemente, não. Os vinhos de inverno ainda são jovens quando comparados às grandes regiões do mundo. Ainda serão observados, estudados e testados por muitas décadas. E isso faz parte da construção de qualquer terroir.
O que já pode ser medido, porém, impressiona. Uma técnica experimental transformou-se em centenas de projetos vitícolas, fortaleceu o enoturismo, impulsionou indicações geográficas e colocou novos terroirs brasileiros no radar da crítica internacional.
O vinho de inverno ainda será testado pelo tempo. Ainda enfrentará críticas. Ainda responderá perguntas que hoje permanecem em aberto. Mas uma coisa já parece difícil de contestar: aquela tese deixou a biblioteca e mudou, para sempre, o mapa do vinho brasileiro.
Talvez por isso o momento mais marcante da entrevista para o programa de TV AL VINO tenha acontecido quando perguntei a Murillo qual era sua maior satisfação: as medalhas conquistadas pelos vinhos ou o fato de tantos produtores terem adotado sua técnica? Com os olhos marejados, ele não falou dos prêmios. Falou das pessoas. “Uma pesquisa que poderia ter terminado esquecida em uma biblioteca acabou gerando vinhedos, vinícolas, hotéis, restaurantes e empregos”, emocionou-se.