A receita da persistência: como um casal transformou brownies feitos em casa em uma marca presente em mais de 130 pontos de venda em Sergipe

A receita da persistência: como um casal transformou brownies feitos em casa em uma marca presente em mais de 130 pontos de venda em Sergipe

Produzidos inicialmente na cozinha de casa e vendidos na praia, os brownies de Matheus Santos e Andreia Militão deram origem a uma fábrica que hoje abastece mais de 130 estabelecimentos sergipanos.

Por Felipe Martins
Pedro Henrique
e Rafaela Prado

Quem vê hoje os brownies da Rei Brownie ocupando prateleiras e balcões de mais de 130 estabelecimentos sergipanos dificilmente imagina que a história da marca começou em uma cozinha de casa, sem equipamentos profissionais e sem qualquer garantia de que o projeto daria certo.

A história começou em 2019. Na época, Matheus Santos trabalhava vendendo açaí na praia e Andreia Militão era funcionária de uma loja de roupas. O casal buscava uma forma de conquistar a independência financeira quando decidiu apostar na produção artesanal de doces dentro de casa.

Antes da fábrica, Matheus já havia experimentado o empreendedorismo. Aos 17 anos, começou a vender açaí por delivery e foi nesse período que conheceu Andreia, que já tinha experiência no ramo alimentício. Juntos, passaram a trabalhar no negócio, mas a primeira experiência empresarial não resistiu às dificuldades financeiras.

Foi preciso recomeçar do zero.

Matheus passou a trabalhar como motoboy autônomo. Andreia conseguiu um emprego com carteira assinada. Mesmo diante dos desafios, o desejo de construir algo próprio permaneceu vivo.

O primeiro passo foi a criação da Milima Doces, marca batizada a partir da união do sobrenome de Andreia, Militão, com o nome de Matheus.

Enquanto ela preparava brownies, brigadeiros e outras sobremesas na cozinha de casa, ele percorria praias, orlas e estabelecimentos comerciais oferecendo os produtos.

“Naquela época, a gente estava se estruturando e pensando em algum projeto para conquistar nossa independência. Andreia produzia em casa e eu saía vendendo”, relembra Matheus.

Sem investidores e sem apoio financeiro familiar, o crescimento aconteceu de forma gradual. As vendas dos doces permitiram ao casal mudar de casa, trocar a motocicleta e comprar o primeiro carro.

Mais do que isso: mostraram que aquele pequeno negócio poderia crescer.

Da cozinha para a fábrica

Depois de cerca de um ano e meio vendendo doces nas ruas e abastecendo pequenos estabelecimentos, Matheus e Andreia decidiram dar um passo maior.

Com aproximadamente R$ 30 mil economizados a partir das próprias vendas, investiram na criação de uma fábrica especializada em brownies.

Nascia oficialmente a Rei Brownie.

Hoje, a empresa produz entre oito e dez mil brownies por mês e está presente em mais de 130 pontos de venda distribuídos entre Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Itabaiana, Ribeirópolis e Nossa Senhora da Glória.

A operação conta com colaboradores diretos e indiretos e alcançou, em maio deste ano, seu maior faturamento desde a fundação: R$ 50,5 mil. No início da trajetória, o faturamento mensal variava entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.

Quem acreditou primeiro

Toda história de empreendedorismo costuma ter pessoas que aparecem quando o sonho ainda parece distante.

Uma delas foi o empresário Victor Cruz, ex-chefe de Andreia, que acompanhou de perto os primeiros passos do casal e se tornou um dos incentivadores do projeto.

Segundo ele, o diferencial nunca foi apenas o produto, mas a dedicação do casal em fazer o negócio acontecer.

“Matheus sempre foi muito ágil, prestativo e eficiente em tudo o que se propunha a fazer. Eu percebia que essa entrega não seria diferente em um projeto próprio. O potencial já estava ali, só precisava de um empurrão.”

Victor conta que acreditou na iniciativa desde o início, principalmente pela disposição do casal em fazer o que muitos empreendedores evitam: sair para vender.

“Ele começou exatamente do jeito que muitos não têm coragem de fazer: de porta em porta, apresentando o produto. Sem dúvida, foi uma estratégia acertada.”

Hoje, ao acompanhar a expansão do Rei Brownie, o empresário afirma sentir orgulho por ter participado do início dessa trajetória.

“Empreender não é nada fácil. Mas, com a dedicação que os dois têm, acredito que a empresa só tende a crescer ainda mais.”

A confiança de quem conhecia a trajetória do casal logo encontrou espaço também no mercado.

Outro personagem importante dessa história é o restaurante Maria Gulosa, no bairro Cirurgia, em Aracaju. Há quase dois anos, o estabelecimento foi o primeiro restaurante a apostar na produção do casal e, atualmente, comercializa cerca de 200 unidades do produto por mês.

Para Wilson de Jesus, proprietário do restaurante, a decisão de abrir espaço para a marca foi motivada pela confiança no trabalho apresentado pelos empreendedores.

“Lembro que o Matheus chegou apresentando o produto com muita simplicidade e confiança. A gente percebeu que havia dedicação e vontade de fazer dar certo. Decidimos apostar na ideia e acompanhar esse crescimento de perto. Hoje é gratificante ver que aquele pequeno projeto se transformou em uma marca presente em tantos lugares.”

A parceria iniciada ainda nos primeiros passos da fábrica ajudou a consolidar um modelo de negócio baseado na distribuição para estabelecimentos comerciais, estratégia que hoje faz com que os brownies estejam presentes em mais de 130 pontos de venda espalhados por Sergipe.

O peso de crescer

Com a fábrica vieram também novas responsabilidades.

Além da produção, o casal precisou aprender sobre gestão, fluxo de caixa, logística e administração de pessoas.

Curiosamente, o momento mais difícil da trajetória não aconteceu durante as vendas nas ruas ou na época em que produziam os brownies em casa.

Segundo Matheus e Andreia, o episódio mais marcante foi quando precisaram demitir a primeira funcionária.

A experiência mostrou que empreender não significa apenas conquistar independência financeira, mas também lidar com decisões capazes de impactar a vida de outras famílias.

Hoje, eles afirmam que a maior mudança em suas vidas foi justamente assumir essa responsabilidade.

Quem acompanha esse crescimento de perto também percebe a transformação da empresa. Há quase um ano na equipe do Rei Brownie, Niuelly Maria Canuto Santos conta que conhecer a trajetória dos fundadores foi uma fonte de inspiração.

“Quando conheci a história do Matheus e da Andreia, fiquei impressionada ao saber que a empresa nasceu na cozinha da casa deles. Hoje, ver a estrutura que construíram e fazer parte desse crescimento é muito inspirador. A gente percebe que o sonho deles acabou criando oportunidades para outras pessoas também.”

Muito além do brownie

Para Matheus e Andreia, a maior conquista alcançada até agora foi a independência financeira construída através do próprio trabalho.

Uma independência que não nasceu de grandes investimentos ou de oportunidades extraordinárias, mas de uma rotina de produção dentro de casa e de muitas horas vendendo doces pelas ruas de Sergipe.

Ao entrar hoje na fábrica e lembrar dos primeiros brownies preparados na cozinha, o sentimento é de gratidão.

“O nosso sentimento é de que tudo valeu a pena, de gratidão por não termos desistido mesmo quando tudo parecia improvável.”

Hoje, a Rei Brownie produz entre oito e dez mil unidades por mês e abastece mais de 130 pontos de venda em Sergipe. O casal agora trabalha para ampliar a distribuição para outros estados e levar a marca para todo o Brasil.

Na cozinha onde tudo começou, a receita levava farinha, manteiga, ovos e chocolate. Mas foi outro ingrediente que fez a diferença: a persistência. Ela transformou um pequeno sonho de independência em uma fábrica, criou oportunidades para outras pessoas e mostrou que, às vezes, os sabores mais marcantes são aqueles que carregam uma boa história por trás.

Fotos: João Pedro

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