Cacau sergipano: de aposta desacreditada a nova frente produtiva no estado

Após deixar a construção civil, agricultor no sul de Sergipe revela como o microcrédito viabilizou o cultivo, transformou a renda da família e impulsionou a expansão da cultura do cacau

Por Maria Rodrigues
Fotos Islaine Barbosa

Quando decidiu cortar todo o sítio de laranja e plantar cacau, o agricultor Josinaldo Cândido ouviu de muitos que era loucura. Em Indiaroba, no sul sergipano, a cerca de 100 km da capital,  a mudança parecia arriscada demais para uma cultura que, até então, tinha endereço quase fixo no imaginário nordestino: o sul da Bahia.

Mas ele insistiu.

Na época, dividia a rotina entre o sítio e a construção civil. Trabalhava como pedreiro enquanto tentava manter a produção de laranja, atividade tradicional na região. A praga da mosca-negra atingiu o pomar e comprometeu a renda da família. Foi nesse momento, com incentivo da mãe, que decidiu cortar os pés de laranja e começar do zero com o cacau. “Os conhecidos aqui me chamavam de louco por cortar um sítio de cinco anos. Ninguém conhecia o cacau aqui na região, só pela televisão”, relembra.

Josinaldo continuou indo para as obras durante o dia e cuidando das mudas no tempo que restava. O retorno não veio rápido, afinal, o cacau exige tempo, manejo e paciência. Foram cerca de quatro anos até a produção ganhar estabilidade. Enquanto isso, as dores na coluna, acumuladas em anos de trabalho pesado, se intensificaram. O corpo começava a impor limites que a necessidade financeira ainda não permitia respeitar.

O ponto de mudança veio quando a lavoura passou a gerar renda suficiente para sustentar a casa, após anos de dedicação e do apoio de crédito rural que ajudou a manter o plantio até a produção.

“Graças a Deus, hoje eu tenho qualidade de vida. Já está sendo bom e vai ser melhor ainda. O cacau dá essa certeza de que, se você investir e se dedicar, ele dá retorno. E não é só para se manter, dá para pensar em crescer, em ampliar a área”, afirma.

Diante dos pés de cacau que cultiva em Indiaroba, Josinaldo Cândido ergue as mãos em agradecimento pela colheita e pela mudança de vida que veio com o fruto.

O que era complemento virou sustento. Josinaldo deixou definitivamente a construção civil. 

“Agora, quando fico doente ou indisposto, posso tirar o dia para descansar e depois voltar para a roça. Antes do cacau, eu não podia escolher”, diz.

Hoje, nos três hectares cultivados, a expectativa é colher cerca de 2.500 quilos de cacau neste ano. O preço do quilo costuma girar entre R$ 14 e R$ 15, segundo o produtor. 

Pensando na expansão da produção, Josinaldo começou a dar outro passo dentro da própria atividade: um viveiro de mudas de cacau na propriedade. A iniciativa se tornou uma nova fonte de renda e também passou a atender produtores da região, que antes precisavam buscar mudas em outros municípios ou até em outros estados.

“O viveiro também é mais uma renda. Além de plantar, agora também vendo mudas para quem quer começar”, conta.

Entre as variedades cultivadas, a principal aposta é o cacau clonado, conhecido como CCN 51, considerado mais produtivo e resistente. Segundo Josinaldo, a diferença na lavoura é perceptível.

“Eu já plantei do comum, mas o clonado é melhor. Produz mais e dá mais segurança para quem está começando”, afirma.

Com a produção em crescimento e novas mudas saindo do viveiro, Josinaldo já pensa nos próximos passos: ampliar a área plantada e investir ainda mais na lavoura que, poucos anos atrás, muitos diziam ser uma aposta arriscada.

Entre o plantio e a colheita

Para muitos agricultores familiares, investir em uma nova cultura sem acesso a financiamento é um desafio difícil de superar. Com recursos próprios limitados, iniciativas como o plantio de cacau, que pode levar anos até a primeira colheita, muitas vezes simplesmente não saem do papel.

Foi nesse momento que o crédito entrou na história de Josinaldo e mudou o rumo do plantio.

Ele acessou recursos por meio do Agroamigo, programa de microcrédito rural do Banco do Nordeste voltado a agricultores familiares, dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

No caso de Josinaldo, o financiamento foi decisivo para transformar o cacau em qualidade de vida para a família.

“Se não fosse esse projeto no Banco do Nordeste, eu não teria esse plantio. Eu trabalhava de pedreiro e o que ganhava era só para se manter. Não sobrava para investir na roça”, explica.

O diferencial, segundo ele, está nas condições de pagamento.

“Você pega um valor e tem três anos para começar a pagar. São três parcelas. Isso dá um fôlego para trabalhar e esperar a lavoura produzir”, acrescenta.

O crédito voltado para produtores de cacau na região começou a ser ofertado em 2023. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, cerca de R$ 640 mil já foram financiados pelo programa para investimentos na cacauicultura em Sergipe, segundo o Banco do Nordeste.

De experiência isolada a movimento regional

Nos últimos dois anos, o número de produtores de cacau no estado saltou de 17 para 52, segundo dados da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro). No mesmo período, a produção de amêndoas passou de 9,5 toneladas, em 2024, para 15,9 toneladas em 2025.

Além disso, em 2019, o Ministério da Agricultura e Pecuária aprovou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático para o cultivo do cacau na região. O instrumento identifica áreas e períodos de plantio com menor risco climático para a lavoura. Atualmente, a atividade tem se concentrado principalmente em municípios do sul sergipano, onde produtores e técnicos apontam condições favoráveis ao cultivo.

Com a lavoura em expansão, também surgem canais de comercialização. Parte das amêndoas já é destinada a empresas do setor, como a Cargill Alimentos, que mantém um posto de compra no município de Arauá, também no sul do estado,  e adquire diretamente a produção de agricultores da região.

Além da venda das amêndoas, pequenas iniciativas de agregação de valor já aparecem nas próprias propriedades. Segundo o diretor de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa da Emdagro, Jean Carlos Nascimento, algumas unidades produtivas já diversificam o aproveitamento do fruto.

“Hoje acompanhamos cerca de cinco propriedades onde foram implantadas mudas e sistemas de irrigação. Em Arauá, por exemplo, alguns produtores já comercializam, além das amêndoas, o mel de cacau extraído da polpa do fruto”, afirma.

Para a assistência técnica, o surgimento dessas iniciativas indica que a cultura avança para além do plantio, abrindo espaço para novas etapas da cadeia produtiva no estado.

Do fruto aos derivados

O avanço do cultivo de cacau em Sergipe também passa a ganhar forma em feiras da agricultura familiar e em eventos do agronegócio pelo estado.

Morador de São Cristóvão, na região metropolitana de Aracaju, o agricultor, apicultor e caprinocultor Silvio Santos Carneiro encontrou no cacau uma nova oportunidade de diversificação da produção.

Ele compra amêndoas de produtores do sul sergipano, principalmente em Arauá, onde um primo mantém plantação da fruta, e também de agricultores como Josinaldo, em Indiaroba. Segundo Silvio, muitos produtores da região acabam se ajudando, criando uma rede de cooperação que fortalece a cadeia produtiva do cacau que começa a se formar no estado.

Entre os produtos que ele comercializa estão o mel de cacau, o mel de abelha combinado com nibs de cacau — pequenos pedaços da amêndoa torrada — além do próprio nibs e do pó de cacau, utilizados em receitas e preparações artesanais.

Segundo ele, a aceitação tem sido muito positiva. “Tem muita gente que já liga antes da feira perguntando quando a gente vai e pede para separar os produtos”, conta.

Para chegar aos derivados, o processo passa por algumas etapas. Depois de retiradas do fruto, as amêndoas passam por fermentação em cochos de madeira e são secas ao sol. Em seguida, são torradas e trituradas, dando origem ao nibs e ao pó de cacau 100%.

Já o chamado mel de cacau é extraído da polpa do fruto por meio de uma prensa e resulta em um líquido leve e naturalmente adocicado.

O contato com produtores da região sul acabou influenciando também os planos de Silvio. Entre eles está Josinaldo, que se tornou uma referência para quem começa a apostar no cultivo do cacau.

“Ele foi um dos primeiros que começou a plantar aqui no estado. A gente vê que está dando certo. Hoje ele já tem até o viveiro, e isso anima a gente também”, afirma.

Com a procura crescente pelos derivados do fruto, Silvio já considera profissionalizar o plantio de cacau no próprio sítio, em São Cristóvão, para produzir parte da matéria-prima que hoje compra de outros agricultores.

Para ele, esse movimento também ajuda a mudar a percepção sobre a cultura no estado. “Muita gente pensa que o cacau só vem da Bahia ou do Amazonas, mas Sergipe também tem potencial”, afirma.

O presente redesenhando o futuro

Em Sergipe, a cacauicultura passa a ganhar forma como uma nova frente de produção no campo. O que até poucos anos parecia uma experiência isolada passa a desenhar os primeiros contornos de uma cadeia produtiva no estado.

A expansão do cultivo já se reflete tanto nas áreas plantadas quanto nas iniciativas de beneficiamento e produção de derivados do fruto. Com condições favoráveis ao plantio, acesso a crédito rural e apoio de politicas públicas, a cultura surge como uma alternativa de diversificação para produtores que buscam ampliar ou reinventar a produção agrícola.

Se antes o cacau parecia distante da realidade sergipana, hoje ganha espaço e desperta o interesse de novos agricultores. A cultura ainda dá os primeiros passos, mas os sinais de crescimento indicam que o fruto pode ganhar cada vez mais presença na paisagem agrícola do estado.

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