De Horst Kissmann
Prazeres da Mesa
Para muita gente, viver no campo é estar mais perto da terra. Na Serra da Mantiqueira, a Fazenda Sede leva essa ideia alguns passos adiante: além da casa cercada pela paisagem rural, cada proprietário poderá ter seu próprio vinhedo e acompanhar o nascimento de um vinho feito para chamar de seu, da escolha das uvas à garrafa que chega à mesa.
Essa é a ideia por trás da Fazenda Sede, empreendimento instalado em 127 hectares na divisa entre Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo, e Jacutinga, em Minas Gerais. A cerca de duas horas e meia da capital paulista, a antiga Fazenda Ranchão, produtora de café desde o século XIX, prepara uma nova colheita para sua história. Desta vez, entre construções centenárias e a paisagem de montanha, entram em cena as videiras.
Primeiro projeto da Campo, empresa dedicada ao desenvolvimento de espaços rurais produtivos, a Fazenda Sede terá 45 glebas de 20 mil a 25 mil metros quadrados. Cada uma contará com área destinada a um vinhedo particular. Não se trata apenas de morar ao lado das parreiras. O proprietário poderá escolher as variedades, acompanhar o ciclo das uvas, participar das decisões sobre o estilo do vinho e, ao final, colocar seu próprio rótulo na garrafa.
O grau de envolvimento fica por conta de cada proprietário. Quem quiser acompanhar poda, vindima e vinificação poderá colocar as mãos no projeto. Quem preferir participar apenas das decisões mais importantes terá uma equipe especializada cuidando do restante. A consultoria de vinhos é conduzida por Jorge Lucki, colunista do Valor Econômico e da revista Prazeres da Mesa e único brasileiro integrante da Académie Internationale du Vin de Paris. No campo, quem responde pelos vinhedos é Paulo Monteiro, português nascido na Região Demarcada do Douro, especialista em viticultura de montanha e radicado em Espírito Santo do Pinhal.
Da fazenda de café à terra do vinho

O endereço não foi escolhido por acaso. A Fazenda Sede está a 1.115 metros de altitude, em uma região que vive uma interessante mudança de vocação agrícola. O café continua sendo parte essencial de sua identidade, mas as videiras passaram a redesenhar trechos da Mantiqueira e colocaram Espírito Santo do Pinhal entre os destinos mais interessantes do vinho brasileiro.
Parte dessa transformação passa pela dupla poda, técnica que inverte o ciclo tradicional da videira e transfere a colheita para o inverno. Em vez de amadurecer sob as chuvas do verão, as uvas chegam à vindima em uma época de dias ensolarados, noites frias e menor precipitação. A amplitude térmica e a altitude completam um conjunto especialmente favorável à produção de vinhos.
Na Fazenda Sede, o assunto foi levado parcela por parcela. Um estudo detalhado identificou seis terroirs dentro da propriedade, e a escolha das uvas será feita de acordo com as características de cada área. Isso significa que os vinhedos não precisarão seguir uma receita única. Solo, exposição e condições específicas de cada gleba ajudarão a definir o que será plantado e, consequentemente, o que poderá chegar à taça.
A história começou justamente com uma vontade bastante parecida com aquela que o empreendimento agora oferece aos futuros proprietários. José Humberto Prata Teodoro Júnior procurava um lugar para plantar seu próprio vinhedo quando chegou à antiga Fazenda Ranchão, ao lado de uma vinícola. Gostou tanto da propriedade que decidiu comprá-la. Depois convidou Eduardo, amigo desde os tempos de FGV, para pensar em algo maior.
Os dois cresceram em famílias ligadas ao campo e não queriam transformar a propriedade em mais um condomínio de casas de fim de semana. “Meu desejo nunca foi entrar no mercado das casas de campo, mas fazer algo rural de verdade, e não um simulacro de fazenda”, diz Eduardo.
É justamente aí que a Fazenda Sede tenta encontrar sua personalidade. O campo não entra como pano de fundo para a arquitetura. Há produção, ciclos agrícolas e uma relação planejada com aquilo que existe além dos limites da propriedade. Vinícolas, queijarias e pequenas cidades da região fazem parte dessa geografia afetiva e gastronômica.
O século XIX encontra a nova Mantiqueira

O passado da propriedade também terá papel importante nessa história. O conjunto arquitetônico do século XIX será recuperado pela RADDAR, escritório fundado e dirigido por Sol Camacho, com novos usos pensados para manter a fazenda em movimento.
A Casa Sede receberá restaurante e espaços para eventos. A antiga Tulha, que um dia esteve ligada à rotina agrícola da propriedade, será dedicada ao vinho, com ambientes de degustação e convivência. A Capela de São José voltará a receber cerimônias religiosas, enquanto o Terreiro permanecerá como memória física dos tempos em que o café comandava a paisagem.
Ao redor desse núcleo surgirão adega de vinificação, cozinha experimental para workshops, horta, pomar, empório, biblioteca, lago, quadras de tênis, trilhas, academia e espaços destinados a encontros. Tudo converge para uma ideia relativamente simples, mas ainda rara no mercado brasileiro: não comprar apenas metros quadrados no campo, e sim participar da vida de uma fazenda que continua produzindo.
Com inauguração prevista para o final de 2028, a Fazenda Sede quer fazer da propriedade rural uma experiência que se mede também em safras. A casa pode ficar pronta, a decoração pode mudar e o jardim crescer. O vinho, porém, seguirá seu próprio relógio. Primeiro vem a escolha da uva. Depois, poda, amadurecimento, vindima, adega e garrafa. Até chegar o momento talvez mais interessante de todos: sentar à mesa, abrir o próprio rótulo e descobrir qual é o gosto daquele pedaço da Mantiqueira.
Fazenda Sede
Divisa entre Espírito Santo do Pinhal (SP) e Jacutinga (MG)
Área total: 127 hectares
45 glebas de 20 mil a 25 mil m²
Inauguração prevista: final de 2028
@campoespacosrurais