O vinho que nasceu no terroir de Lula na zona do agreste de Pernambuco

O vinho que nasceu no terroir de Lula na zona do agreste de Pernambuco

De Sergio Ruiz Luz
Gastronomia – VEJA

 

Localizada entre a Zona da Mata e o Agreste, a 200 km do marco Zero do Recife, Garanhuns ficou conhecida nacionalmente como a terra natal de Lula. O presidente viveu na zona rural da cidade até os 5 anos de idade, quando migrou para São Paulo com sua família. Quase oito décadas depois, um investimento pretende fazer com que o município se transforme em referência no país também pela produção de vinhos de altitude em pleno Nordeste. No planalto da Borborema, a 900 metros, o pasto foi coberto por videiras e de lá são extraídos tintos e brancos premiados em avaliações de especialistas, que vêm se surpreendendo com as características do “terroir de Lula”.  Empresa responsável pela façanha, a vinícola Vale das Colinas virou motivo de orgulho local. Há um ano, tornou-se patrimônio cultural e imaterial de Garanhuns.

A história começa em 2013, quando o casal de oftalmologistas Michel Moreira Leite e Micheline Cavalcante Silva compram um terreno na zona rural de Garanhuns e, junto com o sonho, um curso de vinhos, daqueles oferecidos em restaurantes. Antes de plantar, testam viabilidade e solo com apoio de Embrapa e Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). Em agosto de 2017 chegaram as mudas de Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain — e, em 2020, no auge da pandemia, colhem a primeira safra. Hoje, toda a vinificação acontece na propriedade, que tem produção anual de 29 000 garrafas, vindas de 14 hectares. Quando a propriedade era um pasto, empregava um funcionário. Agora, a Vale das Colinas tem mais de quatro dezenas de funcionários no campo e passou a movimentar o turismo e a autoestima regional. “Quando levamos os primeiros trabalhadores para vinificação na Embrapa, muitos nunca tinham visto uma videira, hoje eles falam até de coisas técnicas, como a fermentação. Aqui empregamos todos com carteira assinada, não há mais diaristas ou meeiros (trabalhadores rurais que dividem a colheita com o dono da terra), aqui são todos funcionários com seus direitos respeitados”, contou Michel à coluna AL VINO.

O segredo do lugar está no microclima de montanha tropical. A amplitude térmica na colheita pode superar 20°C, somando dias luminosos e noites frias que preservam acidez, lapidam aromas e dão precisão ao cacho. Sem recorrer à poda invertida, a safra acontece em janeiro, com colheita de madrugada, das 4h às 9h, para manter uvas frescas e inteiras. É um manual de delicadeza aplicado ao semiárido de altitude.

Os resultados já trouxeram algumas medalhas de concursos nacionais e internacionais para os rótulos que homenageiam as filhas do casal fundador e a natureza ao redor. Apesar dessas conquistas, a vinícola que iniciou as atividades há pouco mais de uma década ainda não permite que os proprietários deixem a medicina. “Nossos custos são muito altos porque estamos fora do eixo, onde estão boa parte das vinícolas brasileiras. Minhas garrafas vêm do Chile e quando compro um tanque de aço-inox pago outro em frete e impostos”, disse Michel. Outro desafio é fazer com que a região consuma os próprios vinhos. “Muitos restaurantes, queijarias e charcutarias surgiram depois da vinícola, no entanto meus vinhos não estão em nenhuma carta da cidade”, lamentou o empresário. “Esse acredito que seja meu maior desafio.”

Cinco garrafas de vinho em uma mesa de madeira, com fundo verde e luz solar. Da esquerda para a direita: vinho rosé, vinho branco, vinho tinto, vinho verde e vinho tinto. Uvas e queijo complementam a cena
A linha de produtos da vinícola de Garanhuns (Divulgação/VEJA)
Continua após a publicidade

O enoturismo tem sido a forma de apresentar os produtos ao público. A visita guiada com prova de três vinhos ao valor R$ 70 é uma das mais procuradas, mas há piqueniques, casamentos, sessões de fotos e muitos eventos. Enquanto Recife fervilha com frevo no carnaval, Garanhuns tem um festival de jazz. O sunset com musica instrumental é uma das atrações mais disputadas da cidade. O “Natal Encantado” e a corrida Vale das Colinas, que segundo Michel leva atletas do Sudeste para a cidade natal do presidente, também são datas fortes para a vinícola atrair visitantes. “Nós também temos a festa da pisa da uva, com colheita noturna e jantar harmonizado. Estamos enterrando vinhos, submergindo outro lote na bacia do Mundaú e vamos deixar outra parte em uma adega para fazer um evento que vai testar qual deles envelhece melhor”, contou.

Já foram enviadas cestas com produtos da região e os vinhos da vinícola para o filho mais famoso da cidade, o presidente Lula. “Nunca soube se ele recebeu, imagino que saiba de nós. Enviamos também para Jair Bolsonaro e Michelle, que postaram que receberam os vinhos nas redes sociais”, disse Michel. “Independentemente de partidos ou preferências, aqui nós precisamos de apoio”.

Em agosto está previsto o lançamento do primeiro espumante, feito pelo método tradicional com 12 meses de autólise (contato com as borras). Hoje, as vendas dos vinhos são realizadas na própria vinícola e na loja Bebidas de Pernambuco, em frente ao Marco Zero do Recife. O e-commerce que irá enviar os produtos para todo Brasil ficará pronto em junho. Os vinhos mais jovens custam R$ 95. Os gran reserva que envelhecem em barricas de, no máximo, segundo uso, saem por R$ 165. O vinho licoroso de colheita tardia, por sua vez, tem preço de R$135.

No fundo, a Vale das Colinas prova um ponto que o vinho vive repetindo mundo afora: quando lugar, gente e método se encontram, o mapa se redesenha. No alto da Borborema, um Nordeste de noites frias possibilitou a Garanhuns erguer um brinde ao agreste que, assim, ganhou mais um motivo para festejar.

Total
0
Shares
Previous Post
Emissão de carteira de identidade acontece na Ferreira Costa

Emissão de carteira de identidade acontece na Ferreira Costa

Next Post
Telma Shimizu incorpora salmão pela primeira vez em sua cozinha

Telma Shimizu incorpora salmão pela primeira vez em sua cozinha

Related Posts
Total
0
Share